Editorial

Desde os 11 anos, quando o saudoso Tio Magno me apresentou formalmente ao rock'n roll, eu já ouvia falar da sua morte anunciada. Felizmente o tempo segue contradizendo os boatos e o rock vai sobrevivendo e se solidificando. Continua sendo uma linha mestra para o seu público segmentado, uma mina de ouro a quem o explora de forma inteligente e uma dor de cabeça para quem por ele é criticado. Insiste em ser campeão de rentabilidade em turnês, vendas e downloads. Não cansa de ditar ideologias, comportamentos e movimentos. Apesar de uma expansão cada vez maior de outros sons e tendências, segue solitário na capacidade de criar ideologias, movimentar multidões em prol de um objetivo e fazer a gente se divertir e pensar ao mesmo tempo. Este blog é a minha maneira de agradecer ao rock'n roll pelos arrepios, suspiros, lágrimas e alegrias a mim proporcionadas até hoje. Aqui podemos discutir o rock de uma forma geral, analisar e debater seus fatos e ícones, seja por lazer ou mesmo como exercício crítico. Interaja! Mande suas postagens e sugestões, passe o blog a quem gosta de rock. Toda participação é bem vinda!! Longa vida ao rock’n roll e bom divertimento a nós todos!!

02 agosto 2014

COPOS PLÁSTICOS

Em plena época da febre da música tão descartável quanto um absorvente usado, compartilho com vocês a opinião de dois ícones da música sobre concursos como "American Idol" e "The Voice".
“Eu não quero que meu filho ache que a única forma de ser um músico é ficar na fila para teste em um grande concurso e acabar com um ricaço qualquer dizendo-lhe que ele canta bem ou não. Para mim, a música não é assim.” (DAVE GROHL, baterista do Nirvana e vocalista do Foo Fighters)
"Eu odeio ser negativo, mas programas assim são um insulto à música e aos músicos. Toda vez que eu vejo jovens cantores arrebentando suas entranhas para tentar conquistar a atenção de alguém, que está grosseiramente sentado de costas para o cantor, eu me sinto enojado. O programa rebaixa o ato de cantar a um nível de um obstáculo estúpido. Isso não é definitivamente o sentido da música. Quando alguém canta ou toca, de verdade, não precisa ficar se esgoelando para tentar persuadir alguém a notá-lo. Basta ter alguma mensagem, emoções sublimes, algo belo que possa ser compartilhado pelo músico com um público, que dá a atenção àquilo que ele acredita merecer. A apresentação é tudo que um músico pode oferecer... Sua voz, seu som, sua linguagem corporal, sua expressão facial, um contato visual íntimo... Assim, é totalmente estúpida a ideia de que alguém possa julgar um cantor virado de costas para ele e perder todo esse contato. Para mim, isso não faz o menor sentido e é totalmente venenoso para o crescimento de jovens músicos."(BRIAN MAY, guitarrista do Queen)
Após ler isso fiquei pensando e entendi ser interessante gerar uma reflexão saudável, na cabeça das pessoas que gostam de música.
Me perguntei, então: e se talentos como Freddie Mercury, Elvis, Roy Orbison, Dio, Bono Vox e outros menos cotados tivessem ouvido de um "jurado-Deus" que não eram bons o suficiente? Ou tivessem fracassado na votação popular?
Também pensei, rindo, em um concurso para ver se Monet pintava bem ou não, ou para constatar se Luis Fernando Veríssimo poderia ter ou não sucesso? Parei de rir quando me dei conta que o tempo, a obra e a obstinação faz dos gênios o que eles são, e que eles poderiam, em qualquer que fosse a área artística, sucumbir ao entendimento da massa votante ou à crítica nem sempre embasada dos jurados.
A mim, tais programas musicais passam quase incólumes, em especial por ter outras fontes de descobertas do que posso querer ouvir. Todavia, admito que mesmo esses concursos podem ser uma boa gênese. Não sou tão rígido assim. Recentemente, por exemplo, fui apresentado a uma banda chamada SURICATO, da qual gostei e de quem vou buscar mais referências.
O que não encontra norte na minha cabeça é: o que esses reality shows realmente avaliam? Deixei de acreditar que é apenas o talento, apesar do contexto tentar evidenciar isso. Afinal, o termo "the voice" faria supor a melhor voz, não é mesmo? E sabemos que nem sempre as vozes mais impressionantes são escolhidas pelos jurados e ganham esses concursos.
Assim, por mais que eu ainda quisesse acreditar que a qualificação seria a razão da láurea, percebo que o vencedor nem sempre é o melhor, mas o mais simpático ao público, aos jurados ou aos interesses de quem quer que esteja suportando esses embates.Obviamente existem competições dessa natureza onde a vontade popular predomina sobre o júri. E a voz do povo é a voz de Deus, dizem... Será mesmo? Quantas pessoas tem realmente a capacidade para avaliar um músico? Talvez 90% dos votantes saibam tanto de música quanto eu sei sobre física quântica. Dentro dessa ausência de “know-how”, certamente avaliarão se deixando influenciar pela aparência do artista, por seu gosto pessoal ou por qual música cover o concorrente estava cantando ou tocando. Isenção e imparcialidade na escolha? No way...
Se vocês já assistem, reflitam... Se não, chequem alguns vídeos no youtube, ao menos trechos das performances dos vencedores dos concursos. E questionem-se: o quanto esses "ídolos" tem mesmo talento ou outras coisas influenciam para rótulos e títulos? Obviamente existe muita gente talentosa, e alguns deles se sobressaem. Mas, em contrapartida, em quantos desses concursos realmente levou a medalha de ouro quem mereceu?
Analisando um desses programas, chamou minha atenção o fato da jurada sempre julgar todos os candidatos como "incríveis", independentemente da performance. Em uma das audições os caras da banda erraram a letra e desafinaram completamente. Mesmo assim, ouviram dela que eram "maravilhosos". O que ela verdadeiramente estava avaliando?
Talvez tenha sido uma forma de incentivo, pena, ou mesmo um "lavo minhas mãos", já que o público julgaria depois. Não sei... Tenho certeza apenas que sem o espaço da mídia ou desamparados da bênção da avaliadora, aquela banda específica não teria "talento" pra conseguir cobrar R$ 1.000,00 de cachê pra tocar por aí. Fico matutando sobre qual interesse há em tentar me convencer que ao invés de mais ensaios aqueles caras mereciam estar tocando no som do meu carro.
Cada vez mais creio que não precisamos de jurados políticos, outros interesses ou avaliações populares para nos empurrarem goela abaixo o que devemos ou não ouvir e quem é talentoso ou não. A conclusão deve ser nossa.
Um jurado deveria ter conhecimento e uma avaliação afiada para dizer se, tecnicamente, esse ou aquele candidato é bom ou não. E ponto final. O público poderia eleger, empiricamente, o mais popular dos artistas, o mais carismático, o mais performático... E novamente ponto final. Agora, querer tentar me convencer que "A" ou "B" são superstars, ídolos ou qualquer coisa do gênero por que o público votou ou porque o jurado tal falou que sim, me parece uma demasia...
O problema não é a influência desses estereótipos sobre quem realmente gosta de música como arte ou tem, por conhecimento ou experimentação, comparativos de qualidade. Esse público é seletivo e efetivamente analisa a qualidade, o carisma, a virtuose, a capacidade emocional ou técnica do músico. A banda que ficou em primeiro ou a que ficou em último estarão dentro de sua seara de avaliação e passarão sob seu crivo de qualidade.
O cerne da situação reside sobre a grande massa. Porque a maior parte da população, infelizmente, não está muito preocupada com a qualidade. Ouvem o que está tocando ou mesmo aquilo que lhe dizem ser bom. Não tenho nada contra isso, pelo contrário. Tem gente que realmente ouve música para se divertir, independentemente de qualquer coisa. O ponto é que, não havendo preocupação do público com a excelência musical, qualquer coisa que venha bem maquiada, agradável aos ouvidos e com uma boa presença na mídia, parece vestir perfeitamente... E infelizmente, convenhamos, existe uma grande fatia de consumidores adquirindo o que é oco, obtendo música artificial ou usando músicos de um uso só, descartáveis como copos plásticos.
Hoje a música é apresentada ao grande público como mídia de entretenimento, um passatempo rentável, mesmo que a qualidade esteja em último plano. Se isso ficasse apenas no campo "diversão", ok, mas a petulância de alguns em atribuir louros de habilidade a quem não os tem e profundidade a quem é raso como uma colher, beira o afronte.
Pior ainda é haver recursos para mascarar as imperfeições e melhorar o que é medíocre. Programas de computador conseguem emparelhar qualquer picareta a um grande músico. Segundo o site UOL, os instrumentos das músicas apresentadas para o público votar em um recente reality de música poderiam ter sido previamente gravados, ficando somente a parte vocal ao vivo. Lembremos também da distância oceânica no espaço dos meios de comunicação em prol dos músicos que substituíram o cérebro pela bunda ou a alma pelo bolso.
Resumindo, se um computador ou o playback não salvam quem é ruim, a mídia trata de fazê-lo. Complicado ser músico qualificado ou idealista hoje em dia... Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come.
Música é mais do que isso: é arte, é feeling, é alma, é vocação e/ou dedicação... A arte e a música podem até se tornar produtos de mercado, mas não podem nascer sendo. O manejo interesseiro em cima disso sempre existiu, mas se tornou pesado demais. Parece-me evidente que os meios de comunicação conseguem, ainda mais do que em outras épocas, moldar o gosto popular ou trilhar as opções de tendências para ali adiante...
Uma pesquisa recente, da empresa Crowley, revelou que no ano de 2013, nas rádios brasileiras, o gênero sertanejo foi executado cerca de 125 vezes mais do que a MPB, 80 vezes mais do que o axé, 20 vezes mais do que o rock, 05 vezes mais do que o samba/pagode e 04 vezes mais do que o pop. Ainda no meio radiofônico, a pesquisa apontou que entre os 10 artistas mais tocados nos últimos 14 anos, 06 são sertanejos... Nada contra, mas será que os brasileiros gostam tanto assim de música sertaneja?
Interessante é que nas plataformas digitais (rádios web), onde o público tem outro perfil, mais seleto e preocupado com a qualidade musical, gêneros mais trabalhados musicalmente, como o pop, o rock, o metal, a MPB, o blues e a soul music predominam... Será mesmo que a mídia com maior penetração (rádios FM de massa e canais de TV aberta) realmente não exploram esse filão conforme seus próprios interesses?
Apesar de tudo isso, há boas novas...
Felizmente salvam-se algumas gotas em meio ao oceano inteiro de lixo empacotado e industrializado: artistas que ganham a vida sem deturpar a arte. Antigos e novos... Percussionistas, roqueiros, sambistas, instrumentistas clássicos, gaitistas, guitarristas de flamenco, blueseiros, jazzistas, músicos eruditos... Até mesmo músicos dos gêneros mais modistas... Seja de que estilo for, há gente muito boa no underground/lado escuro da mídia, mas ao alcance de todos em redes sociais e outras plataformas. O gosto de cada um vai segmentar seu público, mas ao menos podemos crer que realmente existe vida atrás dos detritos.
No lado tecnológico, já foi lançado nos EUA um player de alta qualidade, que exigirá gravação em determinado grau de definição. Também borbulha um movimento mundial buscando baixar a compressão de gravação das músicas, o que significa que quem é ruim não conseguirá levantar o volume para parecer melhor.
Some-se isso a um acesso cada vez maior das pessoas à informação de outras fontes que não as de massa, e temos um pequeno alento a quem quer o bem da música... Para quem imaginava que só haveria tiroteio no fim do túnel, pequenas luzes começam a piscar.
Então, acreditemos nos artistas que nos cativam realmente, quer com 50 ou com 80% de aprovação do público na votação. Brindemos aos que tem talento sem olhar-lhes a beleza física. Aclamemos a quem dura mais de um disco ou de uma turnê, sejam dinossauros ou fedelhos. Aplaudamos tocam por amor à música e oferecem o melhor e mais sincero que podem a quem está ouvindo, mesmo que não apareçam na TV ou não estejam entre as 10 mais da rádio. Enfim, estendamos o elixir da longa vida aos que não são copos plásticos...
(Resenha também publicada em www.whiplash.net, o maior site sobre rock'n roll do Brasil - http://whiplash.net/materias/opinioes/207703.html)

25 agosto 2013

DE VOLTA...

Então, pessoal... 

Segundo Voltaire, "paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar. Por vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens, aventuras ou novas descobertas."

Este blog, que começou como uma pequena forma de expressar minha paixão pelo rock'n roll, acabou se tornando uma necessidade prazerosa para mim e uma fonte de informação e discussão para muitas pessoas. Afinal, já superamos 46 mil acessos. 

Retomo hoje minha "prisão paradisíaca", como gosto de denominar meu blog. Estou super alegre pela possibilidade de continuar vivendo e propagando o rock'n roll, analgésico da minha alma e eterno companheiro de todos os momentos.

Em breve voltarei a postar. Ventos fortes de rock'n roll... E deles virão novas viagens, novas aventuras, novas descobertas... 

So... Let's rock again!!! Forever and ever.

Abraços a todos!!!

07 setembro 2011

WATERS E GILMOUR – O REENCONTRO EM “COMFORTABLY NUMB”



12 de maio... Arena O2, em Londres, completamente lotada. Roger Waters fazia outro espetáculo de sua tour comemorativa aos 30 anos do legendário álbum “The Wall”. Aquele era para ser apenas “mais um show”, até que a fabulosa “Comfortably Numb” iniciou.

Como sempre, havia o enorme muro projetado atrás de Waters, os prodigiosos efeitos de luz e sombras, os gestos e as poses cênicas do cara. Tal qual em todos os concertos, a banda estava atrás da parede e apenas o vocalista posicionava-se à frente dela, dando à ópera-rock o aspecto de um monólogo musicado. 

Os primeiros versos são praticamente declamados, como só ele sabe fazer. Aquela voz sombria do “homem triste do rock”, como li em um livro recentemente, criava o clima mórbido. Nessa hora a expectativa é que a música vá seguindo seu rumo normal e alguém apareça no topo do muro no lugar de David Gilmour, para a segunda parte do vocal e os irrepreensíveis solos.

É quando as luzes focam o alto da parede e lá está a figura que fará a parte de Dave. E o cara é... O próprio Gilmour!!! Exatamente! Pela terceira vez nos últimos 30 anos, David voltou a dividir o palco com Roger (ou a ficar muitos metros acima dele), tal qual nos shows da turnê de 1980 e 1981.

A platéia não sabia desta novidade, nem que o batera Nick Manson também participaria do show, na canção “Outside The Wall”. O anúncio extra-oficial era de que o encontro poderia acontecer no espetáculo do dia 17/05, também na capital inglesa, mas nada estava 100% confirmado. Talvez por isso o êxtase tenha sido ainda mais impressionante.

“Comfortably Numb” é um dos maiores hinos da história do rock, a única música que carrega consigo dois dos maiores solos de guitarra de todos os tempos. Virtuosa, enebriante, categórica, definitiva... Faltam adjetivos para descrever com o devido valor o último épico dos progressivos.

De todas obras primas do Pink Floyd, “Comfortably Numb” é aquela que melhor expressa o dueto mágico entre o cerebral Waters e o pure feeling Gilmour. É a plena união do pensar e do sentir, do corpo e da alma. Mesmo sendo tão complementar de um e outro, a canção jamais deixa de evidenciar a dicotomia entre uma metade clara e iluminada, cantada e tocada por Gilmour, e a escura e sombria, na voz de Waters.

Houve um tempo em que eu ouvia música ao voltar das baladas. Apagava a luz, fechava os olhos, colocava os fones e subia o volume ao máximo. “Comfortably Numb” era uma das canções que praticamente separavam meu corpo e mente. Os solos, o contraste entre a angústia de Waters e a suavidade dos vocais de Gilmour... Eu vivenciava aquilo de uma forma muito intensa, imaginava um filme diferente a cada audição.

Voltando à música, a letra é de Waters e o instrumental de Gilmour. Infelizmente essa foi a última canção em que os dois foram co-autores diretos. Diz a lenda que David compôs a melodia para primeiro álbum solo, de 1978, mas ela acabou ficando mesmo para o “The Wall”. Ao ser apresentado ao instrumental no estúdio, Waters encarregou-se de recheá-la e o resultado todos nós conhecemos.

Muitos sustentam que a interpretação de “Confortably Numb” esteja relacionada às drogas, mais especificamente à heroína. A hipótese é refutada por Waters, o que para mim já seria suficiente. De qualquer forma, quem conhece minimamente Pink Floyd sabe o quão simplista seria concluir que a música tivesse esse sentido por falar em entorpecimento no título. Roger Waters é genial demais para tão pouco. 

Na minha visão a explicação está no contexo que a canção assume no filme “The Wall”. A ópera rock trata da história do personagem Pink - para muitos um caractere fictício, para poucos uma personificação de Syd Barret, para mais alguns (eu entre eles) um rascunho da saga de vida do próprio Waters.

A análise precisa ser feita dentro da aspecto da desolação e tristeza que compõem o contexto mais amplo do “The Wall”. A letra traz todas as angústias da infância de Waters, refletidas no personagem Pink: os professores que limitavam suas reflexões, a ida do seu pai à guerra e sua criação sem a figura paterna, a mãe superprotetora. Resumidamente, tudo o que contribuiu para criar, dentro dele, mecanismos de defesa.

O garoto cresce com essas marcas indeléveis na personalidade, internalizando cada vez mais seus sentimentos e tornando-se insano em doses homeopáticas. Waters trata a supressão dos pensamentos de Pink como um problema da nossa estrutura social, assim como fez em outros momentos da carreira da banda (veja o contexto do álbum “Animals”, por exemplo...).

Cada um dos gaps de felicidade experimentados é um tijolo no muro da alienação de Pink, que em muitos momentos incorpora a personalidade de Roger quando mais jovem. Em “Mother”, do mesmo disco, uma das passagens que trata da superproteção da mãe de Waters, traz, na voz materna: “Of course mamma will help to build the wall...”

Quando Pink está “confortavelmente entorpecido” pelas drogas, sua demência acaba separando-o das pessoas e dos pensamentos que poderiam magoá-lo. A sua insanidade é fria, sem sentimentos nem emoções, mas tanto ela quanto o muro emocional que criou acabam protegendo-o dos fantasmas que transitam pelo mundo externo ao seu. 

Essa gélida zona de conforto é eficaz para blindá-lo, mas acaba isolando-o também das pessoas que querem ajudá-lo. Os versos iniciais da canção (“Is there anybody in there?” e “Is there anyone at home?”) são os chamados de quem está do lado de fora do muro de Pink para tentar tirá-lo da alienação.  Da mesma forma, a pergunta “Is there anybody out there?”, dita antes do início da música, é a forma de Pink/Waters demonstrar o incômodo do entorpecimento, e que a fuga passa necessariamente em saber se o que há do outro lado do muro são só espinhos.

O problema para o personagem é que, no contexto da solidão, tristeza e doidice de Pink, o compositor escancara a impossibilidade da volta atrás. Na última parte da canção, o lado mais sombrio de Waters aparece dizimando qualquer fio de esperança para o personagem: “eu me viro para olhar, mas está finalizado; eu não posso mais tocar nisso agora, a criança está crescida, o sonho acabou e eu me tornei confortavelmente entorpecido”.

Waters é realmente um mestre quando o assunto é remexer nas mazelas da natureza humana: alienação, frieza, insanidade, exclusão, perdas, destruição de qualquer vínculo afetivo ou social. Parece inacreditável que ele consiga nos fazer pensar que tais distúrbios podem até ser bons, considerando quão maléfico é quem/o que está do lado de fora do muro.

Antes que alguém relacione a letra com outras coisas, vale comentar que algumas experiências desagradáveis da saúde de Waters ajudaram a delinear a letra, em proveito de um sentido mais amplo. Seriam como os eventos perfeitos dentro do cenário desejado por ele.

As “mãos inchadas como balões” vieram de uma doença na infância de Roger, conforme comentado por ele próprio em entrevista (2009): “Na letra menciono que tive uma febre e que sentia as mãos como balões. Eu estava febril e delirava. Minhas mãos pareciam muito grandes, assustadoras...”.

No filme, “Confortably Numb” inicia com Pink catatônico em uma poltrona de hotel, imerso à alienação submetida por ele próprio. É quando um médico (incorporado nos concertos por Waters vestindo um guarda pó branco) o desperta para que ele possa ir ao concerto. 

Essa situação refere-se a um show do Pink Floyd na Filadélfia, em 1977. Na oportunidade Waters subiu ao palco sem condições de ficar de pé. Estava “confortavelmente entorpecido” por um remédio cavalar contra dores no abdômen, diagnosticadas depois como hepatite. Coincidentemente ou não, “Comfortably Numb” é sucedida, no disco “The Wall”, pela faixa “The Show Must Go On”. 

Se Waters foi genial na composição, Gilmour não deixou por menos na melodia. É mais do que perfeita a junção de feeling e técnica na condução da canção e principalmente nos dois solos. Alex Lifeson, guitarrista do Rush, diz que seus olhos enchem de lágrimas todas as vezes que ouve a música.

Como sempre, David é modesto ao tratar de suas realizações. Mesmo que os solos de “Confortably Numb” sejam referência para qualquer guitarrista, Gilmour os trata com a mais absoluta naturalidade: “Eu voltei ao estúdio e experimentei cinco ou seis solos. Neles, fiz os meus procedimentos usuais: ouvi-los e marcá-los como muito bons, bons e descartáveis. A partir daí eu sigo as marcações e vou tentando fazer um solo legal com base no todo. Foi o que fiz em “Comfortably Numb”, e não foi tão difícil assim”.  Tá bem, David...

O vídeo do reencontro, mencionado no início da postagem, segue abaixo, sem que maiores comentários façam-se necessários. Levante o volume e saia do chão... 

A pré-venda de ingressos para os shows de Roger Waters no Brasil se aproxima. Vê-lo ao vivo, para mim, será a realização de mais um sonho roqueiro. Seria querer demais ter David Gilmour em cima do muro?

Abraços a todos!



31 maio 2011

ROCK IN RIO – I MISS YOU...


Minha amiga Manô foi brilhante e escreveu quase tudo o que eu queria falar sobre o assunto em seu blog (http://manoyellow.blogspot.com). Todavia, quem me conhece sabe que eu não sossegaria se não opinasse a respeito.
Desde que começaram as especulações sobre atrações do Rock in Rio, ainda em 2010, comecei a indagar: qual seria a chance desta edição do festival ser a mais roqueira de todos os tempos?
Imediatamente meu lado camisa preta gritou: cara, 100%!!!! Iria ser dureza superar as edições anteriores, em especial a de 1985, mas havia a real possibilidade disso acontecer! Afinal de contas, nomes como Rush, Paul McCartney, Eric Clapton, Roger Waters, Pearl Jam, AC/DC, Metallica, Ozzy Osbourne, Neil Young e Megadeth, entre muitos outros, seguiam na ativa e poderiam estar na estrada em 2011...
Também pensei que, levando em conta os outros festivais, dificilmente Guns, Iron e Chilli Peppers estariam fora da lista de atrações. Beleza, legal... Eles estariam bem encaixados com quatro ou cinco dos que listei acima. Já teríamos um festival com sete ou oito nomes de peso, como na primeira edição.
No mais, as bandas modernas que suprem a necessidade de rejuvenescer o público e uns ou outros caras do paupérrimo rock nacional de hoje completariam o line up. Todos ficariam contentes... Teríamos um festival sensacional, que honraria seu nome e seu passado, e que agradaria gente dos 15 aos 60 anos.
Entretanto, à medida que cada uma das atrações era oficialmente anunciada o sonho ia morrendo... Ao invés de Angus, Ozzy, Paul ou Vedder, os assentos desse trem foram sendo tomados por extraterrestres ao rock ou por seres roqueiros bem menos significantes. Cheguei a esperar por passageiros coloridos ou mesmo por uma chuva de meteoros, mas felizmente fui poupado dessa...
Não tenho nada contra a música pop, o axé, ou qualquer outro ritmo diferente do rock’n roll.
Agora, imaginem o grau de estranheza de termos Metallica & Vitor e Leo como atrações de um festival sertanejo, ou de Roger Waters montar seu muro em um trio elétrico... Maluquice, não é? E quanto isso é diferente de Shakira e Kate Perry sendo atrações em um festival de rock?
O Rock in Rio conseguiu essa excentricidade: é um restaurante chinês, com nome chinês e lanternas chinesas, mas que serve comida alemã...
Felizmente o Rock in Rio já foi mesmo ROCK in Rio, e seu legado ficará para sempre... Abaixo, um dos saudosos momentos da primeira edição do festival. Na noite de 11 de janeiro de 1985, logo depois dos shows do Whitesnake e do Iron Maiden, o Queen apresentou-se diante de 300 mil fãs.
Alguns aclamam a versão de “Love of My Life” desse show como a maior de todas as performances já realizadas no Rock in Rio, e a maior execução desta música pela banda. Concordo em gênero, número e grau, e penso que próprio vídeo me dá razão. Bons tempos aqueles...
Ah... Antes que alguém pergunte, provavelmente não irei ao Rock in Rio. O mesmo valor que eu gastaria para estar lá foi suficiente para assistir U2, Ozzy e John Fogerty, além do Clapton, que verei em outubro. Qual das noites do festival bateria essas quatro atrações? Acho que não preciso responder...
Abraços a todos.

22 maio 2011

FOO FIGHTERS, JOHN PAUL JONES E JIMMY PAGE - UM ENCONTRO MEMORÁVEL


Recebi e-mails solicitando posts sobre o Led Zeppelin e sobre o Foo Fighters. Pois bem... Decidi fazê-lo de forma conjunta, aproveitando a ponte existente entre eles e Dave Grohl.
Nunca fui um fã entusiasta do Foo Fighters e estou entre aqueles que considera Dave Grohl um sensacional baterista e um vocalista nota sete. Alguns críticos dão a ele o título de maior batera da era grunge, outros dizem que ele é o cara que conseguiu tocar com a pegada mais próxima a John Bonham, fabuloso baterista do Led. Concordando ou não com as comparações, penso ser um desperdício Dave não exercer seu enorme talento com as baquetas.
Reza a lenda que Grohl começou na música tocando guitarra aos 11 anos, como autodidata. Sua família decidiu dar uma forcinha bancando aulas, por não aguentar mais ouvi-lo tocar “Smoke On The Water”. A mudança para a bateria aconteceu aos 13 anos, quando o AC/DC, o Motörhead e principalmente o Led Zeppelin, fizeram sua cabeça.
Sobre o Led, Dave disse em uma entrevista: “O Zeppelin era uma das bandas que estava sempre presente, não importava o momento da minha vida. Eles sempre serão a maior banda de rock pesado de todos os tempos. Cada membro era tão incrível individualmente, mas juntos eles conseguiam uma combinação perfeita. Eu lembro de um artigo de um jornal que listava as 10 melhores composições de todos os tempos. Lá estavam Mozart, Beethoven, Wagner, e “Kashmir”, do Led Zeppelin.”.
Dave sempre foi um fã assumido do Led, antes e depois da fama. Já se disse obcecado pela banda, tendo dúvidas se isso é bom ou ruim. Grohl tem três tatuagens em homenagem ao Zep, uma delas com os círculos que simbolizavam o batera John Bonham no referencial disco “Led Zeppelin IV”.
Bonzo sempre foi a referência de Grohl como instrumentista. Isso fica claro no seu jeito de tocar e principalmente na pegada. Ao mencionar Bonham, Dave não poupa elogios ao mestre: “Ele era irresponsável e ousado quando tocava. Claro que sua pegada era incrível, mas ele tinha muito feeling também. Ninguém conseguiu recriar isso, foi algo que somente as mãos e pés de John puderam fazer. O solo de ‘Achilles Last Stand’ é desumano, a bateria de ‘Good Times, Bad Times’ mudou o mundo da música. Se você tem aspirações em ser um baterista, canções como essas são cruciais pra você. Mesmo que não consiga tocá-las, você precisa saber tudo sobre elas.”.
Mesmo conhecendo essa base roqueira de Grohl, meu conceito sobre o Foo Fighters só começou a mudar pra melhor recentemente. Foi ao assistir um ótimo concerto que os caras fizeram para 86 mil fãs em Wembley (07/06/2008), na tour do bom disco “Echoes, Silence, Patience and Grace”.
Enérgicos e tocando um rock’n roll honesto eles começaram a apagar aquela imagem de banda artificial que insistia em aparecer quando escutava suas canções. O show ia bem até o bis, quando alcançou o grau de esplêndido. Ao longo do espetáculo Dave foi dando sinais de que algo mágico iria acontecer: “Hoje vamos fazer o que nunca fizemos, e vai ser explosivo. Esse é o show do qual vocês vão falar nos próximos 20 anos”.
Após cantar “All My Life”, Dave empunhou o microfone, olhou emocionadíssimo para a platéia e agradeceu a galera: “Tocar aqui é uma honra, e se não tirarmos vantagens dessa oportunidade, a maior noite de nossa vida como banda, não será em nenhum outro show”. Às lágrimas, anunciou que haviam preparado algo especial para aquele show durante seis meses, e chamou ao palco seus ídolos John Paul Jones e Jimmy Page, membros do Zeppelin.
Grohl iria acabar trabalhando com John Paul Jones no projeto da superbanda “Them Crooked Vultures”, em 2009, mas essa foi sua primeira e única divisão de palco com Page. O fato de ser um fã declarado da banda obviamente ajudou para que os caras topassem a parada.
Alguns rumores do encontro vazaram durante a semana anterior, mas ninguém acreditava ser possível juntar Jonesy e Page ao Foo Fighters naquela noite. Foi a primeira vez que os dois se encontraram após o histórico concerto em dose única do Led, em 2007. A reunião dos membros remanescentes só não completa porque Robert Plant estava em tour pelos EUA.
“Rock’n Roll”, clássico do Led, veio pesada e intensa, com Dave na batera e o baterista Taylor Hawkins nos vocais. Grohl parecia uma criança feliz e alucinada, tentando reencarnar seu mestre, Bonzo, nas baquetas. Estava realizado por fazer aquilo ao lado daqueles caras. Todas as imperfeições técnicas do encontro (sem ensaios) foram dizimadas pela alegria com que tocavam. A bela “Ramble On” veio em seguida, como sobremesa, com Dave nos vocais.
Na saída dos dinossauros, em meio a fotos e abraços, percebia-se pela fisionomia dos caras do Foo Fighters que um sonho havia se realizado. Grohl ainda teve fôlego para gritar à platéia: “Bem vindos ao dia mais maravilhoso da minha vida”.
Dias depois, ao falar sobre aquele momento espetacular, Dave era um misto de felicidade e preocupação: “Se eu gostei do show? Sim e não. Eu estava muito nervoso antes. Convenhamos, estávamos com Jimmy Page e John Paul Jones no palco... Foi uma noite incrível, com uma grande platéia. Como eu não poderia ficar excitado com isso? Entretanto agora vem a questão: para onde iremos daqui em diante?”.
Coincidência ou não, no último disco do Foo Fighters, “Wasting Light”, Grohl chamou seu ex-parceiro de Nirvana, Kris Novoselic, para participar da faixa “I Should Have Known”. Talvez tenha sido a maneira de Dave continuar prestando reverência a todos os que fizeram parte de sua vida roqueira. Ele certamente escolheu o caminho certo.
Abaixo, o estupendo vídeo do encontro naquele show. Maravilhoso para Grohl, histórico para o rock’n roll.
Abraços a todos.

16 maio 2011

NEIL YOUNG - LIKE A HURRICANE - UMA CANÇÃO IMORTAL


Hesitei durante algum tempo em escrever sobre Neil Young, o pai do grunge e um dos pilares do folk rock. Talvez por admirá-lo demais e temeroso de não conseguir fazer um post à altura do que ele representa para mim e para o rock. Mas, enfim...
Young é um dos caras que embasaram meu gosto musical e provavelmente a melhor herança que meu professor de rock deixou entre tantas outras preciosidades. Nas trocas de idéias sobre música Neil sempre surgia como o caminho correto, a essência roqueira simples e honesta.
Se Neil Young ilustra bem as facetas melódicas e pesadas do rock’n roll, sua magnífica “Like a Hurricane” dá contornos definitivos à essência do próprio artista: letra inteligente, dualidade entre a sonoridade suave da música e as distorções carregadas de guitarra, o coração na ponta da palheta.
“Like a Hurricane” é uma canção de quase 35 anos de idade, mas que não desbotou ao longo do tempo. Seus traços são de imortalidade. Em nenhuma audição ela perdeu a carga elétrica fantástica que senti na primeira vez que a ouvi, há mais de 15 anos.
A música foi composta em julho de 1975, apesar de vir a ser gravada e lançada somente no álbum “American Stars’n Bars”, de 1977. A canção é incrível, densa, combinando perfeitamente intensidade e melancolia. Tendo a Crazy Horse como suporte, Neil Young conseguiu uma excitação roqueira que não tinha com Corsby, Stills e Nash, sua talentosa banda anterior, de traços mais folk.
A letra foi escrita no período em que Neil convalescia de uma cirurgia nas cordas vocais, e seu cenário veio de uma noite de exageros com seu amigo Taylor Phelps nos bares de San Matheo.
A noite que inspirou a música encontra-se em um intervalo na vida sentimental de Neil Young. Ele havia rompido há pouco com a atriz Carrie Snodgress e sua essência romântica voltava a aflorar. O belo trecho “Eu sou um sonhador, mas você é somente um sonho” deixa isso bem claro.
A canção fala de um fugaz encontro entre Neil e uma mulher em um bar. O fato efetivamente aconteceu e a garota se chamava Gail. Os versos trazem Young se aproximando da garota, deixam subentendida uma intensa química entre os dois (olhos dela em fogo, toque nos lábios) mas culminam com um infeliz desfecho: o sentimento de desolação de Neil por não tê-la levado para casa.
Segundo reza a lenda a garota não saiu da cabeça de Neil Young por um tempo. A frustração pelo inatingível levou o cara ao teclado, de onde saíram as primeiras notas da canção. Um tempo depois Neil levou um esboço da música à sua banda, com duas frases escritas em um envelope: “You are like a hurricane, there’s calm in your eye”. A partir disso a banda começou a trabalhar na canção, que ficou pronta em 10 dias.
Em entrevista a um jornal canadense, o guitarrista Poncho Sampedro trouxe mais detalhes interessantes sobre a elaboração de “Like a Hurricane”: “Neil não estava gostando do jeito que eu tocava a guitarra, do ritmo que eu tinha na elaboração. Tudo mudou quando eu comecei a dedilhar as cordas de forma simples, e Neil disse que este poderia ser o jeito certo. E foi a única vez que a tocamos daquela maneira, aquele foi o take.”
Além da simplicidade, outras fontes de inspiração contribuíram para a formação da música. Uma delas foi a clássica canção sessentista “Runaway”, de Del Shannon. Neil Young explicou essa situação no livro “Shakey”: “Quando ‘Runway’ chega à parte ‘I’m walkin’ in the rain...”, estes são acordes semelhantes ao refrão de ‘Like a Hurricane’.
Young também fez uma menção honrosa à criatividade do seu baixista, Billy Talbot: “A canção vem de uma sequência de quatro notas do baixo de Billy. Às vezes ela soa como se estivéssemos tocando realmente rápido, mas não estamos. A música apenas gira em ciclos.”
Neil Young é um cara modesto mesmo, às vezes em demasia. Obviamente a base do baixo e a origem das notas são essenciais, mas 90% do brilho de “Like a Hurricane” vêm de sua performance na guitarra. Desde o riff inicial os holofotes dirigem-se somente para as notas lamuriosas e poderosas que Neil extrai.
A música é longa (8min20seg), mas de plena energia e profundidade emocional. Letra e melodia trazem à tona a obscuridade e a ternura do mundo de Neil. Os caracteres dos fatos de sua vida pessoal estão fortemente presentes, como sempre. Os vários solos são envolventes e mesmo as distorções são melodicamente lindas.
A tradução da canção é mais ou menos a seguinte: “Uma vez pensei ter te visto em um bar lotado e esfumaçado, dançando na luz de estrela a estrela. Bem longe dos raios da luz da lua, sei que é isso que você é. Uma vez vi seus olhos castanhos virarem fogo.// Você é como um furacão, há calma em seu olho. E estou sendo arremessado para longe, para algum lugar mais seguro onde o sentimento permanece. Eu quero te amar mas estou sendo arremessado para longe.// Eu sou só um sonhador, mas você é somente um sonho. Você poderia ter sido qualquer uma pra mim ante daquele momento quando tocou meus lábios, aquele sentimento perfeito. Foi quando o tempo deslizou para longe de nós em nossa jornada nebulosa.”
Assim como outras canções já mencionadas aqui no blog, em especial “Layla”, “Like a Hurricane” também teve que passar por uma edição para adequar-se ao tempo das emissoras de rádio da época. Uma versão mais curta foi lançada em 08 de agosto de 1977, como um b-side do single "Hold Back the Tears".
“Like a Hurricane” também ganhou uma versão sensacional no  “Unplugged” de Neil Young, em 1991. O cara trocou a guitarra pelo piano, colocou a harmônica em ação e presenteou os fãs com uma belíssima e densa releitura do rascunho da música.
Outra performance que merece absoluto destaque é a gravada no excepcional “Weld”, de 1991, um dos melhores shows ao vivo da história do rock. Ao lado de sua melhor banda, Neil Young faz sua guitarra chorar durante 15 minutos de uma forma poucas vezes vista.
Abaixo, vídeo de outra versão inesquecível desta canção, gravada ao vivo em Berlin, 1982. Ao lado de Ben Keith (guitarra), Joe Lala (percussão), Nils Lofgren (teclados), Bruce Palmer (baixo) e Ralph Molina (bateria), Neil Young nos dá uma aula de rock’n roll. De arrepiar...
Abraços a todos.



08 maio 2011

JOHN FOGERTY - REVIEW DE SHOW - 07/05/2011 - BELO HORIZONTE/MG


Em 2006 John Fogerty declarou que uma canção de rock’n roll precisa de quatro elementos para ser marcante: um bom título, um som de qualidade, uma boa melodia e uma grande performance na guitarra.

Durante 116 minutos foi exatamente assim, com uma saraivada de canções marcantes, que John e sua competente banda (Kenny Aronoff – bateria, Hunter Perrin – guitarra, James Intveld – Guitarra, Dave Santos – baixo, e Matt Nolen – teclados) levaram ao êxtase os mais de cinco mil fãs que lotaram o Ginásio Chevrolet Hall, em Belo Horizonte.

A três semanas de fazer 66 anos e em excepcional forma, Fogerty simplesmente estraçalhou. Uma aula de rock’n roll talvez seja a definição mais adequada para o magnífico show do eterno vocalista do Creedence. O melhor do ano e um dos mais empolgantes que tive a oportunidade de assistir.

Pontualmente às 22h as luzes se apagaram e os acordes da tradicional “Hey Tonight” abriram o show. A recepção da platéia foi muito calorosa, realmente acima da média, e foi retribuída por John com uma aditivada versão da sensacional “Green River”.

“Aditivada”, aliás, é uma palavra que dá bons contornos ao show. Se alguns músicos baixam tons para minimizar as mazelas do tempo sobre a performance, John fez questão de cantar e tocar mais rápido, mais alto e com mais tempero. Há alguns meses um crítico musical escreveu algo como “John deve ter um pacto com o diabo para manter a mesma voz e a mesma energia durante quase 50 anos de carreira”.

Em seguida, Fogerty me arrepiou pela primeira vez, lembrando agosto de 1969, quando o Creedence tocou em Woodstock. Citou Janis, Hendrix e seu amigo Carlos Santana e disse que quando voltou para casa, lembrando da chuva e do histórico festival, compôs a música que viria a seguir, a mágica “Who’ll Stop The Rain”. Incomparável...

Outra linda balada, “Lodi”, a country-roqueira “Lookin’ Out My Back Door” e a completamente rocker “Born On The Bayou” deram continuidade ao repertório predominante dos hits do Creedence. O desfile de clássicos era tão grande e emendado de forma tão rápida que sequer dava tempo de respirar.

John foi muito simpático durante todo o show. Deu palhetas à platéia, fez piadas, posou para fotos com o pessoal que estava na cerca e conversou nos intervalos de todas as músicas. O brincalhão chegou ao ponto de colocar um capacete dos Stormtroopers de Guerra nas Estrelas, entregue por uma fã da pista, e andar como um zumbi desorientado.

Na sequência veio “Ramble Tamble”, o mais espetacular momento da noite. A canção é uma das mais virtuosas do Creedence e um dos melhores solos de Fogerty, mas por aquelas circunstâncias inexplicáveis ficou relegada à condição de “b-side”. Os quase sete minutos marcaram um inesquecível duelo entre os solos de John e a pegada do ótimo batera Aronoff, levando a platéia ao delírio.

Em seguida, mais Creedence... As raízes da soul music afloraram na soberba “Midnight Special”, voltando a dar lugar ao country na alegre “Cotton Fields”.

Todas as influências de John ficariam bastante visíveis ao longo da noite. Nos riffs, solos e conduções percebemos de que forma ritmos como o blues, a rockabilly e o rock, e caras como Jerry Lee Lewis, Little Richards, Carl Perkins, Elvis e Roy Orbison, tiveram sua parcela na criação do Creedence.

Só na décima música Fogerty resgatou sua carreira solo, tocando a ótima “Don't You Wish It Was True”. Foi o tempo ideal pra galera respirar um pouco, já que na sequência o rock’n roll clássico voltou com tudo na sempre imperativa “Run Through The Jungle”.

A esplêndida “Long As I Can See The Light” lubrificou os olhos da platéia, amolecendo o coração de todos para “I Heard It Through The Grapevine”. O clássico do soul, transformado em rock’n roll, foi a plataforma de virtuose de toda a banda. Os solos se multiplicaram e a atmosfera do ginásio ficou completamente anos 70...

“Somebody Help Me” retomou o período pós-Creedence e também deixou uma impressão positiva. A música, do disco Revival (2007), apresentou ótimo peso e guitarras afiadas que agradaram a galera camisa preta.

Mais uma canção inesperada veio na sequência, quando a banda começou alguns acordes diferentes, mais roqueiros, mas que traziam na essência uma das minhas músicas favoritas. A arrebatadora balada “Wrote a Song For Everyone” me proporcionou aquele frio na barriga que faltava e me fez lembrar um grande cara, que adoraria estar ali (se é que não estava).

John disse, então, que a próxima música é uma das suas preferidas e que sempre o faz lembrar de seus filhos. Surge o hino “Have You Ever Seen The Rain”, cantado em uníssono pela galera, emendado a uma versão bem rocker de “Pretty Woman”, do inesquecível Roy Orbison.

Quase sem parar inicia a pedrada “Keep On Chooglin’’’, outra pérola obscura do Creedence. Fogerty apresentou uma performance toda particular de guitarra e harmônica, incendiando o público. Para muitos foi o maior momento do show.

“Down On The Corner” passou um pouco despercebida em todo o contexto, mas foi a ponte para que John voltasse a empolgar, desta vez com “Good Golly Miss Molly”, de Little Richard. A música já havia sido gravada pelo Creedence no álbum “Bayou Contry”, em 1969, mas não tão roqueira, agora tocada com três guitarras frenéticas e mais violão e baixo na base.

“Bad Moon Rising” veio a seguir. Uma música simples, sem maiores atributos técnicos, mas cuja batida colocou todo mundo em movimento, dançando, sacudindo a cabeça ou a perna ou mesmo estalando os dedos.

O “encerramento” foi com um dos seus maiores sucessos solo, “The Old Man Down The Road”, de 1985, e com “Fortunate Son”, um dos mais famosos hinos contra a Guerra do Vietnã e definitivamente a música certa para fechar um show.

A volta para o palco foi impecável, também com músicas escolhidas à dedo: “Rockin’ All Over The World”, maior hit de Fogerty, e “Proud Mary”, um dos pilares do Creedence.

Agradecimentos da banda, baquetas e palhetas atiradas à platéia, luzes acesas, música ambiente tocando, um dos roadies desmontando a bateria. Indícios de final de show, certo?

Errado! O público não arredou pé e gritou “Susie Q, Susie Q”, pedindo mais um retorno. Dois minutos depois, quando muita gente procurava as saídas, John retornou e trouxe a banda à tira colo para a imprevista finaleira. No improviso, a banda cochichou, combinou e arrepiou a todos com uma versão irada de “Blue Suede Shoes”. Uma canção do Rei Elvis era realmente tudo o que poderia estar faltando “coroar” a noite.

Set list: Hey Tonight, Green River, Who'll Stop The Rain, Lodi, Lookin' Out My Back Door, Born On The Bayou, Ramble Tamble, Midnight Special, Cotton Fields, Don't You Wish It Was True, Run Trough The Jungle, Long As I Can See The Light, Heard It Through The Grapevine, Somebody Help Me, Wrote a Song For Everyone, Have You Ever Seen The Rain, Pretty Woman, Keep On Chooglin', Down On The Corner, Good Golly Miss Molly, Bad Moon Rising, The Old Man Down The Road, Fortunate Son. Bis 01: Rockin’ All Over The World, Proud Mary. Bis 02: Blue Suede Shoes.

Abaixo vídeo de “Who’ll Stop The Rain”, extraído do esplêndido DVD “Long Road Home”, de 2006. Infelizmente o meu vídeo desta canção ficou com uma qualidade bem abaixo do razoável. A mensagem da canção é que as performances de gênios como The Who, Joe Cocker, Janis, Santana e Hendrix poderiam até “parar a chuva”. Pois bem... Visualizando o belo céu azul desta manhã não tenho a menor dúvida que John e o Creedence conseguiram e estão entre esses ícones imortais.

Abraços a todos!

04 maio 2011

ERIC CLAPTON – LAYLA – A PERFEIÇÃO DO DISCO E DA CANÇÃO

Fonte foto: http://1.bp.blogspot.com/


E Ele estará entre nós novamente... Eric Clapton, talvez o maior guitarrista de rock/blues de todos os tempos, fará três apresentações no Brasil em outubro (Porto Alegre, Rio e São Paulo). Mesmo carregando consigo as conseqüêncas de seus excessos e já contando 66 anos, “Slowhand” está excelente forma. O show, para os rockers e blueseiros de carteirinha, é absolutamente imperdível.

Falar de Clapton é pensar em blues, no rock, na virtuose, na técnica, nos solos e riffs clássicos, e principalmente em “Layla”. Não há como afastar do pensamento o seu masterpiece, sua assinatura definitiva. A canção consegue resumir tudo o que Clapton construiu em quase 50 anos de carreira e é a que mais empolga seu público.

“Layla” é uma das músicas prediletas de Clapton (a preferida mesmo é “Something”). Ao falar sobre ela, em uma entrevista, Eric descreveu: “Eu sou incrivelmente orgulhoso dessa canção. Ela ainda me nocauteia quando a toco. Eu amo ouvir essa canção, é como se não fosse minha, como se eu estivesse ouvindo alguma banda que eu realmente gosto.”.

A canção faz parte do sensacional e indispensável álbum “Layla and Other Assorted Love Songs”, gravado em seis semanas e lançado em dezembro de 1970 pela banda Derek and The Dominos. Esse disco, top 20 da história do rock e top 5 da discografia blues/rock, carrega clássicas como “Little Wing”, “Key To The Highway”, e “Bell Bottom Blues”, só pra citar algumas.

Em 1970, após ter deixado a banda “Delaney & Bonnie” e iniciado sua carreira solo, Clapton partiu para um novo projeto: um álbum com essência mais roqueira, diferente e definitivo, até mesmo conceitual, por assim dizer. Cuidadoso, Clapton montou uma banda espetacular para gravar a obra prima. Recrutou Duane Allman (Allman Brothers Band), o mago do “slide guitar”, e dividiu com ele a responsabilidade pela maior parte do trabalho. No mais, completaram o line up os ótimos Jim Gordon (batera), Bob Whitlock (teclados) e Carl Radle (baixo), ex-companheiros de Clapton do Delaney.

Os quatro americanos trouxeram as desejadas influências roqueiras ao álbum, em especial a sulista yankee (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd...). Ouvindo o disco, percebemos o rock, o blues, o soul e aquela essência tipicamente estradeira, especialidade de Duane. Allman colocou um pouco de tempero no blues tecnicamente perfeito de Clapton, e a mescla disso foi a química mágica do disco.

Falando em química, o disco também foi calcado em drogas nos momentos criativos. Eric, o líder da matilha, vivia a heroína e o álcool intensamente na época. O tecladista Bobby Whitlock, ao comentar o assunto, fez um resumo sincero e matou a questão: ”As sessões de gravação tinham um menu psicotrópico: cocaína, heroína e Johnnie Walker. O resultado? Uma obra prima. Clapton oscilava à beira do caos, mas nunca deixava de ser genial.”.

“Layla and Other Assorted Love Songs” foi produzido por Tom Dowd, um mago que já havia trabalhado com o Cream e a Allman Brothers Band. Foi ele quem intermediou a vinda de Duane para o “Derek and The Dominoes”, certo de que algo brilhante surgiria do encontro dos dois monstros da guitarra.

Ao lembrar-se da incrível sincronia e entrosamento entre Clapton e Duane, o principal diferencial do disco, Dowd disse: “Deveria haver algum tipo de telepatia acontecendo entre eles, pois eu nunca havia visto inspiração espontânea acontecendo naquele nível. Um deles tocava uma nota e o outro reagia instantaneamente. Nunca um deles pediu ao outro para tocar de novo. Eram como se duas mãos coubessem em uma única luva.”.

Tom acertou em cheio... Ao permitir que as gravações fossem feitas em “jam takes” de várias horas e depois aperfeiçoadas, Dowd conseguiu extrair o máximo da criatividade dos caras quando estavam doidos e aproveitou a excelência musical deles quando estavam sóbrios. Ao ouvir o disco pronto, Tom ficou estupefato com o resultado e disse que aquele era o álbum mais sensacional dos últimos 10 anos.

Incrivelmente o álbum teve dificuldades em tornar-se um best seller, só chegando a um bom posicionamento nas paradas 18 meses após o lançamento. As explicações mais plausíveis são que a banda “Derek And The Dominoes” não era conhecida pelo público (o nome de Clapton estava só na contracapa) e que “Layla”, seu carro chefe, era grande demais para tocar nas rádios. Uma maior exposição do disco só aconteceu com a vinculação do álbum à Eric e com a execução de “Bell Bottom Blues” nas emissoras como música de trabalho.

Infelizmente esse disco foi o único do lendário quinteto. A utilização massacrante de drogas por todos os membros perturbou o que seria o início da gravação do segundo disco deles. Alguns desses registros estão presentes na discografia de Eric, mas a obscuridade é clara. Em 1971 ainda houve o falecimento de Duane, e qualquer tentativa de reestruturar aquela brilhante banda foi-se pelo ralo.

Voltando ao disco, todo ele é uma declaração de amor de Clapton à Pattie Boyd, então esposa de seu grande amigo George Harrison. Várias de suas canções (“Layla”, “Bell Bottom Blues”, “Have You Ever Loved a Woman” e “I Am Yours”) encaixam-se perfeitamente no contexto em que viviam e nas circunstâncias adversas para que o amor deles se consolidasse.

Falando especificamente de “Layla”, ela é a trilha sonora do mais famoso triângulo amoroso da história do rock. Sua letra é um conto de amor e obsessão dolorido e amargurado, o relato de uma paixão arrebatadora por alguém inicialmente inacessível.

O título da canção veio de um poema persa imortalizado pelo azerbaijano Nezami Ganjavi, chamado “Leyil and Majnun”. Os versos, datados do século XII, contam a história da princesa Leyil, cujo casamento arranjado fazia sofrer o jovem Majnun, que a amava desde a infância. Um final feliz era impossível, dadas as diferenças entre os clãs familiares, e isso acaba levando Majnun à loucura. Qualquer semelhança não é mera coincidência...

Clapton, apesar de vender a imagem de uma rocha indefectível e inabalável, mostra em “Layla” um lado humano, devotado e apaixonado como jamais fizera ou fez. Seria mais “Clapton” fazer um slow blues choroso e introspectivo sobre o amor quase platônico por Pattie, mas ele preferiu a exposição, o desabafo do fundo da alma, uma súplica piedosa por retribuição.

Eric começou a interessar-se por Boyd em 1969. Fico pensando em quanto ela era irresistível e acabo concluindo que o grau era máximo. Afinal, nenhuma musa inspiradora conseguiu três canções de tamanho quilate como declarações de amor: “Layla” e Wonderful Tonight”, por Clapton, e “Something”, lendária canção dos Beatles composta por George Harrison.

Em 1970 Clapton tomou coragem e declarou seu amor por Pattie em uma festa, tocando “Layla” para ela. Mais cedo, na mesma balada, Eric teria procurado George e aberto o coração para seu amigo. Pattie resistiu a Eric por mais algum tempo, apesar da persistência inacreditável do Slowhand.

Pattie descreveu em seu livro, chamado “Wonderful Tonight”, como foi tocada pela música: “Eu fiquei impressionada e tocada com a canção. Era tão apaixonada e devastadoramente romântica; dolorosa e linda. Eu não pude resistir por muito tempo...”.

Leitoras mulheres... Imaginem um homem apaixonado, com um violão, cantando isso para vocês: “O que você fará quando ficar sozinha e sem ninguém esperando ao seu lado? Você tem fugido e se escondido há tanto tempo, você sabe que isso é só o seu orgulho bobo. // Layla, você me pôs de joelhos, Layla, implorando querida, por favor, Layla. Querida, você não acalmará minha mente preocupada? // Tentei te dar consolo quando seu velho homem te abandonou. Como um tolo me apaixonei por você, você virou meu mundo de cabeça pra baixo // Layla, você me pôs de joelhos, Layla, implorando querida, por favor, Layla. Querida, você não acalmará minha mente preocupada? // Vamos conduzir a situação da melhor forma antes que eu acabe indo para a insanidade. Por favor não diga que não acharemos uma maneira e não me diga que o meu amor é em vão...”. De quanto tempo seria a sua resistência?

Em meio à insistência de Clapton, George mostrava-se um tanto despreocupado com a profundidade das coisas. Sua amizade com Eric e o número de vezes que este o ajudou profissionalmente pesavam para que sua reação não fosse hostil. Da mesma forma, seu amor por Pattie já não era mais tão intenso. Provavelmente pensando em tudo isso George abriu caminho para Clapton “roubar-lhe” a esposa.

Em 1974 Pattie divorciou-se de George, mas a saga dos vícios de Eric, naquele momento a heroína, os manteve afastados. Apenas cinco anos depois, quando Clapton voltou para o álcool e ficou um pouco menos maluco, os dois se casaram em meio à famosa tour de Eric naquele ano (do sensacional disco ao vivo “Just One Night”).

Apesar de todo o contexto ser realmente pouco convencional, George e Clapton continuaram amigos. Continuaram a frequentar a casa um do outro e tocaram juntos muitas vezes depois daquilo, inclusive no casamento de Eric e Pattie. Ambos brincavam com a situação dizendo-se “husbands in law”, como se fossem parentes ligados por Boyd.

A separação do casal aconteceu nove anos depois, segundo Pattie em razão dos problemas de Clapton com o álcool. Em recente entrevista, Eric mencionou ter levado um grande choque com a manchete de capa de um jornal britânico que divulgava o livro autobiográfico de Boyd: “O alcoolismo de Eric Clapton destruiu meu casamento”.

Musicalmente falando, “Layla” foi idealizada como uma balada puxada para o blues. Passou a ser uma canção roqueira com a co-participação de Duane e alcançou um caráter híbrido com o piano do batera Jim Gordon.

Apesar do instrumento não ser sua praia, foi dele a criação do movimento maravilhoso que dá vida à segunda parte da canção. Reza a lenda que em uma madrugada aleatória Clapton voltou ao estúdio e encontrou Jim ao piano, tocando o que viria ser a metade final de “Layla”.

Se as notas de Jim conseguiram fechar a canção com chave de ouro, o arrepiante e incendiário riff de entrada é o cartão de visitas de “Layla”. A inspiração para o começo veio desde um blues de Albert King, ídolo de Clapton, chamado “As The Years Go Passing By” (1967). Em entrevista concedida há mais de 20 anos, Eric mencionou ter “seguido a linha de notas desse slow blues e acelerado...”

Ao longo do som, temos um dos mais inspirados solos de todos os tempos, a perfeita união de técnica e feeling. Clapton e Duane praticamente duelam durante toda a canção, mas remam juntos para torná-la inesquecível. Quem foi mesmo que disse que solos roqueiros precisam de velocidade e que a guitarra não é a rainha dos instrumentos musicais?

De todas as versões de Layla que já assisti, a do vídeo abaixo é a menos técnica, mas certamente a mais rica, rápida e aditivada. Em 21 de setembro de 1983, em um concerto chamado ARMS Charity Concert, Clapton dividiu o palco com Jimmy Page e Jeff Beck. A “Santíssima Trindade da Guitarra” como muitos apelidaram, reuniu-se 15 anos depois e esmigalhou em “Stairway to Heaven”, “Tulsa Time” e “Layla”. É hilário ver o pessoal pedindo a Page que toque mais devagar...

Ainda falando de vídeos de “Layla”, preciso indicar o vídeo onde Clapton reinventou-a, em seu “Unplugged” (1992). Acompanhado de feras como Nathan East, Ray Cooper e Andy Fairweather Low, Eric cortou a parte do piano e criou um arranjo sensacional. A música ficou mais lenta, swingada e blueseira, típica dos bares de New Orleans. Simplesmente sensacional.

Acústica ou elétrica, rápida ou veloz, em 1970 ou em 2011. Não importa quando, como ou por que. “Layla” despreza tempo, ritmo ou intensidade e marca nossos corações a cada audição. Definitivamente sua perfeição a fez imortal...

Abraços a todos!